Artigo de opinião: Coleta seletiva, educação e empatia
Foto Michele Pacheco
Por Michele Pacheco
“Juiz de Fora alcança 100% de coleta seletiva”. “Prefeita sanciona lei que estabelece a obrigatoriedade da coleta seletiva em Juiz de Fora”. Notícias como essas mostram que o município avança nos cuidados com a limpeza urbana e a reciclagem de resíduos sólidos. Ótimas notícias, com certeza! Das 500 toneladas de lixo recolhidas em Juiz de Fora, só 7 toneladas são de materiais para reciclar. Para que a lei funcione na prática não basta a assinatura de contratos.

A questão da coleta seletiva passa por problemas críticos de educação coletiva. Seria perfeito se apenas saber que algo é correto fizesse a população agir da forma certa. Só que não funciona dessa forma. Vou me afastar um pouquinho do tema só para fazer um paralelo! Todos sabem que o cinto de segurança é essencial para salvar vidas durante acidentes ou, ao menos, aumentar as chances de sobrevivência. Mesmo assim, o uso em larga escala só se tornou frequente quando foram aprovadas leis e punições para quem as desrespeita. Pesando no bolso, os cidadãos se tornaram mais colaborativos.
Imagens Michele Pacheco – TVJF Notícias
E o que vejo em relação à limpeza urbana e à coleta seletiva é o mesmo comportamento. Não nos demanda tanto tempo assim deixar uma sacola à parte, na área de serviço – para quem mora em apartamento- ou no quintal – para quem vive em casa-, para juntar os materiais que podem ser reciclados.
Imagens Michele Pacheco – TVJF Notícias
Eu tenho o privilégio de morar num condomínio onde a preocupação com a reciclagem começou bem antes da Prefeitura tornar essa prática obrigatória. A síndica, Selda Menezes, se desdobra para criar mecanismos para que os moradores colaborem. São recipientes separados para lixo úmido e lixo reciclável e placas orientando sobre o descarte correto. A iniciativa mais recente foi transformar um cômodo num andar de garagem em “quartinho do reciclável”. Diante de tudo isso, você deve estar imaginando que tudo funciona perfeitamente, certo? Nem sempre. Mesmo no universo restrito do condomínio, que oferece infraestrutura e informações para incentivar a separação dos resíduos, ainda há pessoas que não se mobilizam. Que acham que dá trabalho e não é a obrigação delas.

Mas, com esforço e persistência, nosso condomínio tem evoluído bastante. Primeiro passo concluído! Mas, aí surgiu outro problema. O recolhimento do material que juntamos. Tentamos priorizar associações de recicladores. Algumas vieram, recolheram e não voltaram. As justificativas foram muitas, desde o fato de que o bairro Alto dos Passos estava fora da rota até a alegação de que estavam sem equipe para buscar.

Numa conversa na Cúria Metropolitana de Juiz de Fora, o Arcebispo Dom Gil Antônio Moreira comentou sobre a Campanha da Fraternidade e destacou um trabalho realizado no bairro Vila Olavo Costa. Conversei com o Padre Carlos Augusto, responsável pelo trabalho e ele foi super solícito. Ficou feliz e disse que o nosso problema era a solução dos problemas dele. Estava com muitas equipes e pouco material para trabalhar. E assim, os interesses se complementaram, ele e a síndica entraram em acordo e a parceria está dando certo.
Isso pode ser aplicado em outros condomínios. Mas, é preciso um trabalho de educação e de conscientização. E de uma boa dose de empatia! Por exemplo, se acabou de consumir um leite em caixinha ou saquinho ou se tomou todo o iogurte da embalagem, não custa lavar antes de descartar. Por que ter tanto trabalho? Porque a pessoa que vai separar os materiais reciclados vai encontrar embalagens limpas e não cheias de restos azedos de alimentos!
Outro problema frequente é o descarte de vidro quebrado. Garis de Juiz de Fora divulgaram vídeos de um deles ferido por cacos de vidro ao recolher sacos num bairro da Zona Sul da cidade. Eles pedem mais cuidado à população. E isso é o mínimo que podemos fazer. Embalar de forma mais segura e escrever alertas de “vidro quebrado” são algumas opções.
E aí entra um outro lado da história. Os recicladores que passam pelas ruas rasgando sacolas de lixo em busca de materiais para vender. Ao abrir uma sacola com esse alerta e cacos de vidro, o correto seria repor o alerta para que os garis não se arrisquem. Mais uma vez, é questão de empatia, de se colocar no lugar do outro.
Enfim! Aprovar leis e tornar obrigatória a coleta seletiva é um passo importante do Poder Público, que também deve criar uma infraestrutura e um esquema de fiscalização que torne a aplicação da lei viável. E cabe a cada cidadão fazer a sua parte. Seja na separação, seja na coleta, seja na reutilização. Não estamos sozinhos nesse jogo e o trabalho em equipe é essencial para o sucesso!
